As coisas que me irritam – parte I

Há poucos dias atrás celebrou-se o dia da mulher. Ofereciam-se flores, chocolates, poemas, beijinhos e até SPAs e unhas de gel, ou seja, tudo aquilo que o dia da mulher não deve ser. Mas isso é outra conversa. Alguns dias depois chutou-se o romantismo para canto, encarcerou-se a ode à sensualidade, e voltou-se à mesma conversa troglodita do costume: “a gravidez não é doença”, ” eu trabalhei até cinco minutos antes de parir” ou “há gente que não quer fazer nada”. Ora qualquer um destes comentários parte do pressuposto errado que todas as gravidezes são iguais, que todos os corpos reagem da mesma forma à presença de um feto ou que todas as mulheres partilham os mesmos sintomas durante a gestação. Ou seja, por outras palavras, e utilizando o absurdo enquanto forma de comparação: se eu falo inglês fluentemente, todos conseguem, se eu corro a maratona, corre e cala-te. Não queres é mexer as pernas. Se eu memorizei a república de Platão, não me venhas dizer que são muitas páginas para a tua memória. Lê e cala-te. Ou seja, é absurdo comparar coisas que não podem ser comparadas. Se o médico indica que a gravidez é de risco, a gravidez é de risco. Não há casos iguais. Mas fico ainda mais irritado com esta predisposição para todos serem obstetras quando vejo estes comentários replicados nos grupos de professores no facebook. As mesmas pessoas que se queixam das intromissões de terceiros no processo de ensino-aprendizagem não são nada meigos quando chega a altura de argumentarem utilizando como arma um suposto curso de medicina do planeta Agostini. Eu fiz, eu exerci, eu não me queixei, eu, eu, eu, eu… e não te calas, tu ?

O rio

A minha mãe dizia assim para o meu pai: quando tiver o menino ou a menina quero ir tê-lo à casa da minha mãe. Chegada a altura – eu estava deserta para sair -, o meu pai remava, mas já não foi a tempo e saí logo. Eu queria era ver o Tejo (entre sorrisos), eu queria era ver o Tejo.

Nómadas do rio

Hoje visitei a aldeia de Escaroupim, uma aldeia piscatória, formada em meados dos anos 30. Alves Redol chamou “nómadas do rio” aos seus habitantes. Famílias que durante os meses de inverno se deslocavam de Vieira de Leiria para o rio Tejo, para as campanhas de pesca de inverno, regressando no verão à sua terra natal, para pescar no mar. O local embora um pouco “abandonado” é lindíssimo e é possível, sem gastar muito dinheiro, realizar uma viagem de barco através do rio, rodear a ilha das garças, passar junto à aldeia da Palhota e observar os cavalos que pastam junto às margens do rio.

O Bruno e eu.

Em primeiro lugar, e antes de qualquer coisa, sou Sportinguista, assim com S grande. Daqueles que não consegue passar sem ver os jogos de futebol do seu clube, e se não os puder ver por algum motivo, não consegue passar sem estar sempre a acompanhar o resultado através do telemóvel ou da Internet. Sou porque sim e isso basta-me, ou seja, não faço a mínima ideia porque escolhi ser do Sporting. Não o escolhi nem pela cor das camisolas nem por causa de qualquer jogador. Apenas me recordo que era do Sporting e era muita feliz.

Comecei a ser do Sporting quando o presidente era o João Rocha. Lembro-me pouco desses tempos, ou melhor, lembro-me dos jogos, dos sete ao Benfica, do sopapo do Bento ao Manuel Fernandes mas não me lembro do presidente. O mesmo com o Amado da Costa. Mas infelizmente lembro-me do Jorge Gonçalves e das suas famosas garras, da sua pinta de burlão e das suas trapaças. Depois chegou o Sousa Cintra, convicto sportinguista mas pobre intelectualmente, sem vontade própria e um fantoche nas mãos dos seus conselheiros sombra. Só assim se explica o despedimento de Robson, a contratação de Queirós, a venda de Figo e Balakov, o desmantelar de uma equipa de sonho. Lembro-me também do Santana Lopes e da sua busca pela notoriedade, da conversa do Canal Caveira e daquela atitude “o Sporting vai levar-me longe”. Foi o início de um ciclo triste para mim. Sei que fomos campeões com o Roquette mas aquilo doía. O homem só tinha olhos para o projecto e nem sabia quem eram os jogadores. Era o futebol empresa (falida) a dar os primeiros passos e o inicio da agonia do clube. A seguir vieram os amigos, o clube do croquete e da ostra, que piorava de presidente para presidente e terminou num incompetente chapado chamado Godinho Lopes.

Depois chegou o Bruno. Ar fresco certamente. Sangue na guelra como referência. Muita coisa boa mas muita coisa má. No entanto uniu o clube, recuperou-o financeiramente e construiu o pavilhão. E isso, queiram ou não queiram, é de valor. É mal educado, correcto; fala demais; fala; tem muito que aprender, tem. Mas ama o clube, ama; incomoda os adversários, incomoda; merece mais quatro anos, merece. Portanto, quem o odeia que engula o sapo pois daqui a quatro anos há mais eleições e o seu trabalho será avaliado novamente. Esperemos que tenha mais títulos, mais períodos de silêncio, menos bocas inúteis mas um facto é indesmentível: mesmo com todos os seus defeitos ( e são muitos) as suas qualidades tornam-no o melhor presidente desde 86. E o resto é conversa…

Ditadura Cultural

” (…) corríamos o risco de incorrer num sistema ditatorial em termos culturais. No fundo, havia uma desigualdade no acesso ao conhecimento e à produção cultural e era isso que a Ama Romanta se propunha a fazer: contribuir, por ínfimo que fosse esse contributo, para o combate a essas ditaduras culturais. Fazendo com que música diferente fosse editada e chegasse ao maior número de pessoas possível. Sabíamos que não íamos derrubar as ditaduras culturais, mas achávamos que, enquanto conseguíssemos resistir, devíamos fazê-lo, mostrando coisas que saíssem do que é convencional e do que é o sistema. Hoje, as ditaduras culturais invisíveis continuam mas de forma diferente.”

João Peste, Entrevista ao Blitz.

A lenda da Moura Salúquia

“Em 1165 Moura era uma cidade chamada Al-Manijah, capital de província. Governava então nessa importante cidade uma formosa moura, de nome Salúquia, filha de Abu-Assan, que se apaixonou pelo alcaide de Arouche, de seu nome Bráfama. Chegada a véspera do dia das núpcias, grande alegria reinava no castelo de Al-Manijah. Salúquia esperava ansiosamente, no alto da torre, ver surgir o seu noivo, entre os densos olivais. Entre tanto Bráfama acompanhado de brilhante comitiva, cheio de contentamento e desprovido de armas, pois ia para um festim e não para a guerra, deixava Arouche e tomava caminho da terra da sua amada, que estava localizada a 10 léguas de distância.

Todo o Alentejo, ao norte e a oeste de moura já tinha sido conquistado pelos cristãos.
El-rei D. Afonso Enriques, encarregou D. Álvaro Rodrigues e D. Pedro Rodrigues, dois irmãos fidalgos muito valentes e ilustres, de conquistarem Al-Manijah, uma das mais importantes cidades muçulmanas, além do Guadiana.
Estes dois fidalgos, sabedores do que se passava no castelo, foram esconder-se com o seu exército num olival (chamado hoje Bráfama de Arouche) e aí esperaram o desventurado alcaide e a sua comitiva para, traiçoeiramente, matarem os infelizes árabes. Já mortos, os cristãos despiram-se e vestiram-se com os seus trajes.

Disfarçados de muçulmanos e simulando alegres canções mouriscas, dirigiram-se de que nada suspeitava. Salúquia, ao vê-los, mandou baixar a ponte levadiça, julgando que seu noivo se aproximava e depressa percebeu que tinha sido traída: os invasores ao transporem os muros, baixaram as máscaras de árabes honrados e começaram a ferir, sem dó, a desprevenida guarnição de Al-Manijah.

Sabedora do que se passava, alcaidessa preferiu a morte à escravidão e num derradeiro esforço, verdadeiramente heróico, tomou as chaves do castelo e precipitou-se da torre onde se encontrava (Torre da Salúquia).
Depois da morte da alcaidessa e da conquista da cidade, os irmãos Rodrigues, pelo o que parece, quando queriam referir-se a Al-Manijah diziam a terra de Moura, a vila (que nesse tempo significava cidade) da Moura”.