As coisas que me irritam – parte I

Há poucos dias atrás celebrou-se o dia da mulher. Ofereciam-se flores, chocolates, poemas, beijinhos e até SPAs e unhas de gel, ou seja, tudo aquilo que o dia da mulher não deve ser. Mas isso é outra conversa. Alguns dias depois chutou-se o romantismo para canto, encarcerou-se a ode à sensualidade, e voltou-se à mesma conversa troglodita do costume: “a gravidez não é doença”, ” eu trabalhei até cinco minutos antes de parir” ou “há gente que não quer fazer nada”. Ora qualquer um destes comentários parte do pressuposto errado que todas as gravidezes são iguais, que todos os corpos reagem da mesma forma à presença de um feto ou que todas as mulheres partilham os mesmos sintomas durante a gestação. Ou seja, por outras palavras, e utilizando o absurdo enquanto forma de comparação: se eu falo inglês fluentemente, todos conseguem, se eu corro a maratona, corre e cala-te. Não queres é mexer as pernas. Se eu memorizei a república de Platão, não me venhas dizer que são muitas páginas para a tua memória. Lê e cala-te. Ou seja, é absurdo comparar coisas que não podem ser comparadas. Se o médico indica que a gravidez é de risco, a gravidez é de risco. Não há casos iguais. Mas fico ainda mais irritado com esta predisposição para todos serem obstetras quando vejo estes comentários replicados nos grupos de professores no facebook. As mesmas pessoas que se queixam das intromissões de terceiros no processo de ensino-aprendizagem não são nada meigos quando chega a altura de argumentarem utilizando como arma um suposto curso de medicina do planeta Agostini. Eu fiz, eu exerci, eu não me queixei, eu, eu, eu, eu… e não te calas, tu ?

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